Vinte mil léguas submarinas · Segunda parte — O fundo do mar
XVI.
Capítulo 17
Ignoro como eu fui parar na plataforma.
Ignoro como eu fui parar na plataforma. Talvez o canadense tivesse me levado. Mas eu respirava e absorvia o ar vivificante do mar.


– Ah! - dizia-me Conselho. - O oxigênio é tão bom! O senhor não tenha receio de respirar. Há que chegue para todos.
Quanto a Ned Land, não falava mas abria a boca de tal maneira que assustaria um tubarão. E que poderosas inspirações! O canadense arfava como um fogão em plena combustão.
Recuperei imediatamente as forças e, quando olhei à minha volta, vi que estávamos sós na plataforma. Nenhum dos homens da tripulação e nem o Capitão Nemo. Os estranhos marinheiros do “Nautilus” contentavam-se com o ar que circulava no interior.
As primeiras palavras que pronunciei foram de agradecimento e gratidão para meus dois companheiros.
– Bom, professor, não se fala mais nisso - disse-me Ned Land. - Não temos nenhum mérito pelo que fizemos. Foi uma questão de aritmética.
A sua existência valia mais do que a nossa e portanto era preciso conservá-la.
– Não, Ned, não valia e nem vale mais. Ninguém é superior a homens generosos como vocês..
Ficamos calados por um momento e depois eu disse:
– Meus amigos, estamos ligados uns aos outros para sempre. Vocês têm sobre mim os direitos...
– Dos quais abusarei - interrompeu-me o canadense.
– Como? - perguntou Conselho.
– Abusarei do direito de levá-lo comigo quando deixar este infernal
“Nautilus” - respondeu Ned Land.
– De fato - disse Conselho - vamos no bom caminho.
– Sim - acrescentei - vamos para o lado do sol e aqui o sol significa norte.
– Sem dúvida - concordou Ned Land - mas resta saber se navegamos para o Pacifico ou para o Atlântico.
Para os mares freqüentados ou os desertos.
Tínhamos que pensar nisso.
O “Nautilus” avançava rapidamente. O círculo polar foi ultrapassado, assim como o cabo que fica no Promontório de Horn. Estávamos na extremidade do
Continente americano no dia 31 de março às sete horas da noite.
Olhando as anotações do imediato na carta de navegação, eu podia determinar a direção exata do “Nautilus”. Ora, naquela tarde ficou evidenciado, para minha grande satisfação, que voltávamos para o norte pela rota do Atlântico.
Comuniquei essa minha observação aos meus companheiros.
– Boa notícia - disse Ned Land. - Mas para onde vai o “Nautilus”?
– Não sei, meu caro.
– Ele não nos diz nada - falou Conselho, referindo-se ao capitão - mas eu só posso dizer que é um grande homem esse Capitão Nemo. Não lamentaremos por tê-lo conhecido.
– Sobretudo quando o tivermos deixado – retrucou Ned Land.
No dia seguinte, 1.° de abril, quando o “Nautilus” subiu à superfície das águas, alguns minutos antes do meio-dia, avistamos uma costa a oeste.
Era a Terra do Fogo, à qual os primeiros navegadores deram este nome ao verem os numerosos focos de fumo que se elevavam das cabanas dos indígenas. A costa parece baixa mas ao longe elevam-se altas montanhas. Julguei até ter visto o Monte Sarmiento, com dois mil e setenta metros acima do nível do mar, bloco piramidal de xisto, de cume aguçado, o qual segundo informação de Ned Land estando enevoado ou limpo anuncia o mau ou o bom tempo.
A noite o “Nautilus” aproximou-se do Arquipélago das Maloínas. A profundidade do mar era pouca. Pensei então que aquelas duas ilhas, rodeadas por numerosas ilhotas, faziam outrora parte das terras de Magalhães. As Maloínas foram descobertas provavelmente pelo célebre John Davis, que lhes pôs o nome de Davis-Southern-Islands. No princípio do século XVIII, foram chamadas de Maloínas pelos pescadores de Saint-Malo e, finalmente, por Falklands pelos ingleses., Quando as Maloínas desapareceram no horizonte, o “Nautilus” submergiu entre vinte e vinte e cinco metros e seguiu a costa americana. O
Capitão Nemo estava sumido.
A 3 de abril, ora submerso ora à superfície, navegamos na região da
Patagônia. O “Nautilus” passou pelo grande estuário formado pela desembocadura do Rio da Prata e a 4 de abril estávamos em frente ao Uruguai, a cinqüenta milhas ao largo. A sua direção se mantinha para o norte, seguindo as longas sinuosidades da América Meridional. Já tínhamos então percorrido dezesseis mil milhas desde o nosso embarque, nos mares do Japão.
Por volta das onze horas da manhã passamos o Trópico de Capricórnio no meridiano 37 e navegamos ao largo do Cabo Frio. O Capitão Nemo, para grande aborrecimento de Ned Land, não gostava das costas habitadas do Brasil, pois passou por elas com grande velocidade.
Essa rapidez manteve-se durante vários dias. A 9 de abril, à noite, avistamos a ponta mais oriental da América do Sul, que forma o Cabo São Roque. No dia 11 de abril o “Nautilus” subiu para a superfície e a terra reapareceu à vista do Rio Amazonas, vasto estuário cuja caudal é tão considerável que tira o sal ao mar numa extensão de várias léguas.
Tínhamos passado o Equador. A vinte milhas para oeste ficavam as Guianas, terras francesas, onde facilmente encontraríamos refúgio. Mas o vento soprava forte e as vagas, furiosas, não permitiam que um frágil bote as enfrentasse. Ned Land deve ter compreendido isso, pois não me falou em evasão. Por meu lado não fiz qualquer alusão ao assunto, porque não queria levá-lo a uma tentativa infalivelmente condenada ao malogro.
No dia 12 de abril, o “Nautilus” aproximou-se da costa, junto da embocadura do Maroni. A finalidade, que não tardamos a descobrir, foi a pesca para reabastecer de carne as despensas do navio.
