Vinte mil léguas submarinas · Segunda parte — O fundo do mar

XV.

Capítulo 16

À volta do “Nautilus” e por cima e por baixo havia uma intransponível muralha de gelo.

À volta do “Nautilus” e por cima e por baixo havia uma intransponível muralha de gelo. Estávamos prisioneiros do banco de gelo. Ned Land bateu com sua robusta mão numa mesa. Conselho permanecia calado.

Eu olhava ,para o capitão: seu rosto retomara a habitual impassibilidade.

Tinha cruzado os braços e refletia. O “Nautilus” estava imóvel e nenhum de nós tinha qualquer idéia salvadora.

Então o capitão rompeu o silêncio e disse:

– Meus senhores, nas condições em que nos encontramos, há duas maneiras de morrermos.

Personagem inexplicável, sua voz soou calma e ele parecia um professor de matemática fazendo uma demonstração.

– A primeira é morrermos esmagados, a segunda é morrermos asfixiados. Não falo da possibilidade de morrermos de fome, porque as provisões do “Nautilus” certamente durarão mais do que nós.

Preocupemo-nos portanto com as hipóteses de esmagamento e asfixia.

– Quanto à asfixia - disse eu - não é muito de recear porque os nossos reservatórios estão cheios de ar.

– É verdade. Chegam para mais dois dias - falou o capitão. - Ora, estamos há trinta e seis horas debaixo da água e a pesada atmosfera do

“Nautilus” pede para ser renovada. Dentro de quarenta e oito horas a nossa reserva de ar estará esgotada. Entretanto, vamos tentar perfurar a muralha que nos rodeia. A sonda nos indicará o lado melhor para a nossa tentativa. Vou encalhar o “Nautilus” no banco inferior e os meus homens, envergando escafandros, atacarão o iceberg pela sua parede menos espessa.

– Pode-se abrir os painéis, capitão? - perguntei.

– Não há inconveniente porque estamos parados.

Ele saiu em seguida. Logo depois o “Nautilus” desceu lentamente e foi parar no banco de gelo a uma profundidade de trezentos e cinqüenta metros.

Passeio sob o gelo
Passeio sob o gelo

– Meus amigos - falei com meus dois companheiros - a situação é grave, mas conto com a coragem e a energia de vocês.

– Não será num momento como esse que irei aborrecê-lo com as minhas recriminações, professor - disse o canadense. - Estou pronto a fazer tudo o que for necessário para a salvação de todos.

Fiquei comovido e apertei a mão dele. Ofereceu-se para trabalhar com os homens do capitão ajudando a furar a parede de gelo. Sua oferta foi aceita e ele me pareceu bastante satisfeito com isso.

Eu e Conselho voltamos para o salão, cujos painéis já estavam abertos.

Rompendo a parede de gelo
Rompendo a parede de gelo

Examinei as camadas ambientes que suportavam o submarino. Passados alguns instantes, vimos doze homens da tripulação pisar o banco de gelo, entre os quais se contava Ned Land, reconhecível pela sua eleva-da estatura. O Capitão Nemo estava junto com eles.

Antes de começar a escavar as muralhas, ele fez as sondagens para assegurar a - boa direção dos trabalhos. Depois de várias experiências com as compridas sondas, ele se decidiu pela superfície inferior que nos separava da água apenas dez metros, pela sua verificação. O trabalho começou imediatamente, conduzido com infatigável obstinação.

Após duas horas de enérgico trabalho, Ned Land e seus companheiros foram substituídos por outra turma, da qual eu e Conselho fazíamos parte. Quando após duas horas de trabalho voltei a bordo para comer e descansar, achei uma grande diferença entre o ar puro que me fornecia o aparelho Rouquayrol e a atmosfera do “Nautilus” já carregada de gás carbônico. Pelo rendimento de nosso trabalho conjunto durante quatro horas, eu fiz um cálculo de que levaríamos mais cinco noites e quatro dias para levarmos a bom termo a nossa tarefa.

– Cinco noites e quatro dias e só temos ar para dois dias nos reservatórios - falei aos meus companheiros.

– Sem contar - replicou Ned - que uma vez libertos desta prisão continuaremos prisioneiros do banco de gelo e sem comunicação possível com a atmosfera.

Com todas essas reflexões pessimistas, mas absolutamente razoáveis, o trabalho continuou em ritmo acelerado. No entanto, eu já havia notado e falado só com o Capitão Nemo, que as paredes do fosso que estávamos abrindo, iam se fechando. No dia 26 de março retomei o meu trabalho de mineiro, escavando com disposição. Logo que comecei a trabalhar percebi que as paredes laterais e a superfície inferior do banco de gelo se engrossavam sensivelmente. Era visível que se uniriam antes do “Nautilus” poder se safar. A picareta quase me fugiu das mãos.

Parecia-me que estava entre as terríveis mandíbulas de um monstro e elas se fechavam inexoravelmente.

Naquele momento, o Capitão Nemo passou junto de mim. Toquei-lhe a mão e apontei para as paredes de nossa prisão. Ele me fez sinal para segui-lo. Regressamos a bordo e, tirado o escafandro, acompanhei-o até o salão.

– Sr. Aronnax, temos de tentar qualquer meio heróico, ou seremos esmagados por esta água que se solidifica como cimento!

– Estou de acordo, capitão. Mas o que havemos de fazer?

Ele começou a refletir, silencioso e imóvel. Eu notava quando uma idéia lhe surgia no espírito. Logo depois percebia que ele a afastava. Respondia negativamente a si mesmo. Finalmente ele falou:

– Água a ferver!

– Água a ferver? - exclamei.

– Sim, professor. Estamos fechados num espaço relativamente pequeno.

Talvez jatos de água fervendo constantemente injetados pelas nossas bombas, elevem a temperatura do meio e atrasem a congelação.

– É preciso tentar - concordei resolutamente.

– Pois tentemos, professor.

O termômetro marcava sete graus no exterior. O capitão me chamou

.para a cozinha, onde funcionavam enormes aparelhos de destilação, os quais forneciam água potável por evaporação. Encheram-se de água e todo o calor elétrico das pilhas foi lançado através de serpentinas banhadas pelo líquido. Em poucos minutos a água atingiu cem graus e foi lançada para as bombas, enquanto nova água a substituía e assim sucessivamente. O calor desenvolvido pelas pilhas era tal que a água fria aspirada do mar, apenas atravessava os aparelhos, já chegava fervendo nas bombas.

A injeção começou e três horas depois o termômetro marcava uma temperatura exterior de seis graus abaixo de zero. Tínhamos ganho um grau. Duas horas mais tarde o termômetro marcava apenas quatro graus.

– Conseguiremos - eu disse ao capitão.

– Penso que sim. Não seremos esmagados. Agora só temos que recear a asfixia.

O ar se esgota
O ar se esgota

No dia seguinte, 27 de março, já tinham sido escavados seis metros.

Faltavam quatro. Eram mais quarenta e oito horas de trabalho. O ar já não podia ser renovado no interior do “Nautilus”. O trabalho prosseguia com vigor. Faltavam apenas dois metros para chegarmos ao mar livre.

Mas os reservatórios estavam quase vazios de ar.

Quando terminei o meu turno de trabalho e voltei para bordo, quase sufoquei. Aquela foi uma noite horrível e eu não saberia descrevê-la.

No dia seguinte minha respiração era abafada. As dores de cabeça juntavam-se terríveis vertigens que faziam de mim um ébrio. Os meus companheiros sentiam os mesmos sintomas. Alguns tripulantes agonizavam.

Naquele dia, o sexto do nosso aprisionamento, o Capitão Nemo, achando que a picareta era muito lenta, resolveu esmagar a camada de gelo que ainda nos separava da camada líquida. Aquele homem tinha conservado o sangue-frio e a energia. Com a sua força moral, ele dominava as dores físicas. Pensava, combinava, agia.

A uma ordem sua, o navio foi elevado. Uma vez a flutuar, foi manobrado de forma a ficar por cima do imenso fosso desenhado segundo a sua linha de flutuação. Então toda a tripulação entrou a bordo e a dupla porta de comunicação foi fechada. O “Nautilus” repousava agora na camada de gelo que não tinha mais de um metro de espessura e que a sonda tinha furado em mais de mil locais.

As torneiras dos reservatórios foram abertas, permitindo a entrada de cem metros cúbicos de água, aumentando em cem mil quilos o peso do submarino. Esperávamos, escutávamos, esquecendo o nosso sofrimento. Era a nossa última oportunidade de salvação.

Apesar do latejar da minha cabeça, ouvi distintamente ruídos debaixo do casco do “Nautilus”. Ocorreu um desnivelamento. O gelo quebrou-se com um estalido semelhante ao do papel ao ser rasgado, e o submarino desceu.

– Passamos! - murmurou Conselho ao meu ouvido. Levado pela sua enorme sobrecarga, o “Nautilus” desceu como se tivesse caído no vazio. Então foi transmitida toda a força às bombas e elas começaram a expelir a água dos reservatórios. Após alguns minutos a nossa queda foi suspensa e o manômetro começou a marcar um movimento ascensional.

A hélice, trabalhando a toda velocidade, fazia estremecer o casco por inteiro e nos levava para o norte.

Mas quanto tempo duraria a navegação sob o banco de gelo? Prostrado num divã da biblioteca, eu me sentia sufocar. Já não via e nem ouvia.

A noção de tempo tinha desaparecido do meu espírito. Não sei dizer quantas horas passei assim, mas tive consciência do começo de minha agonia. Eu ia morrer...

De repente recuperei os sentidos. O ar me enchia os pulmões. Teríamos subido à superfície? Teríamos ultrapassado o banco de gelo? Não.

Eram os meus dois grandes amigos, Ned Land e Conselho que se sacrificavam para me salvar. Alguns átomos de ar restavam ainda no fundo de um aparelho e, em vez de o respirarem, eles os davam para mim. Enquanto sufocavam, davam-me vida gota a gota!

Olhei para o relógio. Eram onze horas da manhã. Devíamos estar a 28 de março. O “Nautilus” avançava à fantástica velocidade de quarenta milhas por hora. O manômetro me indicou que estávamos apenas a uns seis metros da superfície. Uma simples camada de gelo nos separava da atmosfera. Não seria possível quebra-la?

O “Nautilus” ia tentar.

Senti que ele era colocado em posição oblíqua, baixando a ré e levantando o esporão. Impelido pela sua poderosa hélice, atacou o banco de gelo de baixo para cima. Foi quebrando-o pouco a pouco. Recuava e tornava a se precipitar contra o campo de gelo, desmoronando-o.

Finalmente, num esforço supremo, lançou-se contra a superfície gelada e esmagou-a com seu peso.

O alçapão foi aberto e o ar penetrou em todos os seus compartimentos.

Telegrama

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