Vinte mil léguas submarinas · Primeira parte

XV.

Capítulo 15

Esse compartimento era o arsenal e o vestiário do “Nautilus”.

Esse compartimento era o arsenal e o vestiário do “Nautilus”. Havia pelo menos uma dúzia de escafandros suspensos na parede. Ao vê-los, Ned Land manifestou sua má vontade em vestir semelhante objeto.

Escafandros
Escafandros

– Mas, meu caro Ned - disse eu - vamos caçar em florestas submarinas!

– Não me meto dentro de uma coisa dessas, a não ser que me obriguem

– declarou ele, peremptório.

– Ninguém o forçará, mestre Ned - falou o capitão.

– Quanto a mim, sigo o professor por toda a parte - disse Conselho, o meu fiel criado.

O capitão chamou dois de seus homens e eles nos ajudaram a vestir aquelas pesadas roupas impermeáveis, feitas de borracha sem costura e preparadas para resistir a altas pressões.

O Capitão Nemo, um dos seus homens - uma espécie de Hércules que devia ter uma força prodigiosa - Conselho e eu, vestimos rapidamente os nossos escafandros. Apenas faltava metermos as cabeças nas esferas metálicas. Antes de proceder a esta operação, pedi ao capitão para examinar as espingardas que nos estavam destinadas. Um dos tripulantes apresentou-me uma delas.

– Capitão Nemo, esta arma é perfeita e de manejo fácil. Estou ansioso para experimentá-la. Como vamos até o fundo do mar?

– Neste momento, professor, o “Nautilus” está encalhado e por isso só nos resta partir.

Com a lanterna Ruhmkorff à cintura e a espingarda na mão, eu estava pronto para o passeio. Mas, aprisionado dentro daquelas roupas pesadas e colado ao chão pelos sapatos de chumbo, julguei ser impossível dar um passo. Contudo, esta dificuldade já devia estar prevista, porque senti que me empurravam para um pequeno compartimento, próximo ao vestiário, no qual fui seguido pelos meus companheiros.

Ouvi uma porta munida de obturadores fechar-se atrás de nós e fomos envolvidos por uma profunda obscuridade.

Passados alguns minutos, ouvi um forte silvo, ao mesmo tempo que sentia uma impressão de frio subir-me dos pés ao peito. Era evidente que, por meio de uma torneira, tinham dado entrada à água que invadia o compartimento. Uma segunda porta existente no costado do

“Nautilus” abriu-se então e vimos uma certa claridade. Após um instante, pisávamos o fundo do mar.

O Capitão Nemo ia à frente, enquanto o seu companheiro nos seguia a alguns passos de distância. Conselho e eu íamos muito perto um do outro, como se fosse possível qualquer conversa através de nossas carapaças metálicas. A luz do sol iluminava as águas até dez metros de profundidade e surpreendia-me com a sua intensidade. Os raios solares atravessavam com facilidade aquela massa líquida, atenuando-lhe a coloração.

Começamos a andar sobre uma areia fina, uniforme, sem rugosidade.

Passeio no fundo do mar
Passeio no fundo do mar

Aquele tapete extraordinário, verdadeiro refletor, reproduzia os raios solares resultando disso uma intensa reverberação que penetrava todas as moléculas líquidas. Mesmo para mim que estava presenciando o fenômeno, era incrível que a uma profundidade de dez metros, podia ver tão bem como em pleno dia.

Fomos avançando por uma vasta planície que parecia não ter limites. Eu afastava com a mão as cortinas líquidas, que se tornavam a fechar atrás de mim, e o vestígio dos meus passos logo desaparecia sob a pressão da água. Em breve algumas silhuetas de objetos, que eu mal distinguia à distância, foram tomando forma.

Eram então dez horas da manhã. Os raios solares batiam na superfície das águas formando um ângulo bastante oblíquo. Ao contato da sua.

luz, decomposta pela refração como através de um prisma, flores, rochedos, plantas, conchas, pólipos, matizavam-se com as sete cores do espectro solar. Era algo maravilhoso, uma festa para os olhos. Eu sentia verdadeira mágoa por esmagar sob os pés os belos espécimes de moluscos que juncavam o solo. Os pentes concêntricos, os martelos, as donácias, verdadeiras conchas saltitantes, os troques, os capacetes-vermelhos, os estrombos asa-de-anjo, as afilas, e tantos outros exemplares daquele mar inesgotável. Mas era preciso avançar.

A vida no fundo do mar
A vida no fundo do mar

Tínhamos deixado o “Nautilus” há cerca de hora e meia. Era perto do meio-dia, fato de que me apercebi pela perpendicularidade dos raios solares, que já não se refratavam. A magia das cores desapareceu pouco a pouco, e as tonalidades de esmeralda e de safira dissiparam-se do nosso horizonte. Avançávamos a passo regular, que se ouvia com surpreendente nitidez.

Naquele ponto, o solo começou a inclinar-se numa encosta pronunciada. A luz tomou uma cor uniforme. Atingimos uma profundidade de cem metros, suportando então uma pressão de dez atmosferas. Porém, o meu escafandro estava concebido de tal forma que eu não sentia esta pressão, mas apenas uma certa dificuldade em mexer as articulações dos dedos, o que também não tardou a desaparecer. Quanto à fadiga, natural por aquele passeio de duas horas, dentro de uma roupa a que não estava habituado, era nula. Os meus movimentos, ajudados pela água, processavam-se com espantosa - facilidade.

Chegando à profundidade de trezentos pés, ainda via os raios solares, embora já muito fracos. Ao brilho intenso tinha sucedido um crepúsculo avermelhado, meio termo entre o dia e a noite. No entanto, ainda víamos o suficiente para caminharmos, e não se tornou necessário acendermos os aparelhos Ruhmkorff. Nessa altura, o Capitão Nemo parou. Esperou que eu chegasse junto dele. Com o dedo apontou-me umas massas obscuras que se avistavam a pouca distância. “É a floresta da ilha Crespo”, pensei. E não me enganava.

Telegramm

Aufgabeamt: World Wide Web · Ziel: an Bord der Nautilus

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