Vinte mil léguas submarinas · Primeira parte
XIV.
Capítulo 14
No dia seguinte, 9 de novembro, só acordei após doze longas horas de sono.
No dia seguinte, 9 de novembro, só acordei após doze longas horas de sono. Conselho, segundo era seu hábito, foi saber como eu havia passado a noite e perguntar se eu precisava de alguma coisa. Tinha deixado o canadense ainda a dormir.
Depois de vestido, eu me dirigi ao salão onde pensava encontrar o Capitão Nemo. Estava deserto. Passei à sala do, museu da fauna submarina e me entreti apreciando aqueles tesouros encerrados em vitrinas.
Passou-se o dia inteiro sem que eu tivesse a honra de receber a visita do Capitão Nemo. Pude verificar que a rota do “Nautilus” continuava a mesma e que navegávamos a uma velocidade de doze milhas por hora, a uma profundidade entre cinqüenta e sessenta metros.
No dia seguinte, 10 de novembro, verificou-se a mesma ausência, a mesma solidão. Não vi ninguém da tripulação. Ned Land e Conselho passaram a maior parte do dia comigo, igualmente surpreendidos com a ausência do capitão.
Contudo, gozávamos de inteira liberdade e tínhamos alimentos com abundância. O nosso hospedeiro cumpria a sua promessa. Nesse dia iniciei o diário dessas aventuras, o que me permite contá-las com a maior exatidão. Fato curioso: eu fazia minhas anotações num papel fabricado com sargaço marinho.
No dia 11 de novembro, de manhã, o ar fresco que invadiu o interior do
“Nautilus” fez-me saber que tínhamos subido à superfície. Dirigi-me para a escada central e subi à plataforma. Eram seis horas. O tempo estava nublado, o mar cinzento, mas calmo e quase sem ondulação. Eu admirava aquele radioso nascer do sol quando senti alguém subindo a escada para a plataforma. Preparei-me para cumprimentar o Capitão Nemo, mas em vez dele apareceu o imediato. Percorreu a plataforma parecendo não se aperceber da minha presença. Perscrutou todos os pontos do horizonte com extrema atenção e depois se dirigiu para o alçapão pronunciando uma frase que guardei, porque ele a repetia todas as manhãs em que me encontrava na plataforma: “Nautron respoc loni virch”. Pronunciadas estas palavras ele descia. Eu não sabia o significado delas.

Passaram-se mais cinco dias sem que a situação se alterasse. O capitão não aparecia e todas as manhãs quando eu subia à plataforma ouvia a mesma frase pronunciada pelo imediato.
No dia 16 de novembro, ao entrar no meu quarto com Ned Land e Conselho, encontrei sobre a mesa um bilhete do Capitão Nemo. Convi-dava-me e aos meus companheiros para que o acompanhássemos em uma caçada às florestas da ilha Crespo.
– Uma caçada! - admirou-se Ned Land. - Então o capitão tenciona ir à terra - acrescentou.
– Parece-me que sim - disse eu, relendo o convite.
– Temos de aceitar o convite dele - falou o canadense. - Uma vez em terra firme decidiremos o que vamos fazer. Por outro lado, não me importava nada de comer um pedaço de carne fresca.

Decidimos que aceitaríamos o convite do capitão. Ned Land e Conselho se retiraram e o criado de bordo apareceu logo para me servir o jantar. Deitei-me mais cedo naquela noite e adormeci um pouco preocupado com Ned Land e a caçada para a qual fôramos convidados.
No dia seguinte, 17 de novembro, ao despertar senti que o “Nautilus” estava absolutamente imóvel. Vesti-me apressadamente e me encaminhei para o grande salão. O capitão encontrava-se a minha espera.
Cumprimentou-me e me perguntou se o acompanharíamos na caçada.
Respondi afirmativamente, esperando que ele me dissesse alguma coisa sobre o seu sumiço dos últimos dias. Mas ele não fez referência a isso e eu me abstive de lhe fazer qualquer pergunta sobre o assunto.
Contudo, lembrando-me de que o convite dele se referia a uma caçada
“nas minhas florestas da ilha Crespo”, perguntei lhe:
– Como é possível que possua florestas na ilha Crespo, capitão, se afirma ter cortado todos os seus contatos com a terra?
– As florestas que possuo, professor, não exigem do sol nem a sua luz, nem o seu calor. Não são freqüentadas nem por leões, nem por tigres, nem por panteras. Só eu as conheço, só existem para mim. Não são florestas terrestres, mas submarinas.
– Florestas submarinas!
– Exatamente, professor.
– E quer levar-me para caçar nelas?
– De espingarda na mão e a pé seco, professor.
Olhei o comandante do “Nautilus” com um ar que nada tinha de lisonjeiro para ele. “Decididamente está louco”, pensei. “Deve ter tido um ataque de loucura o que explica o seu desaparecimento nos últimos oito dias. É uma pena! Eu o preferia estranho, como sempre me parecera, a louco como me parece agora”, raciocinei, enquanto ele me olhava com um leve sorriso.
– Por convidá-lo a ir caçar comigo nas minhas florestas da ilha Crespo, professor - disse-me ele - julgou que eu estaria em contradição com as minhas convicções. Quando lhe informei que se tratava de florestas submarinas, passou a pensar que estou louco.
– Mas, capitão, creia que...
– Escute-me primeiro e verá se pode me acusar de contradição ou de loucura. Sabe tão bem quanto eu que o homem pode viver debaixo da água desde que leve consigo uma provisão de ar respirável.
– Sei. Usando escafandros.
– Exatamente. Mas, nas condições em que os conhece na terra esses aparelhos são muito imperfeitos ainda e dependem do fornecimento de ar através de um tubo apropriado que os liga à superfície. Esse sistema tolhe a liberdade do homem sob a água porque ele está preso à terra.
Se tivéssemos que ficar ligados por esse cordão umbilical ao “Nautilus”, não poderíamos ir longe.
– E qual é a maneira de se ficar livre e poder ir longe?
– Utilizando um aparelho Rouquayrol-Denayrouze, inventado por dois franceses, mas que aperfeiçoei para meu uso. O meu aparelho é composto por um reservatório de espessa chapa de ferro, dentro do qual armazeno o ar a uma pressão de cinqüenta atmosferas. Este reservatório é fixo às costas por meio de correias, como a mochila de um soldado. Como eu tenho de suportar enormes pressões no fundo dos mares, tive de proteger a cabeça, como os escafandristas, dentro de uma esfera de cobre, e é a essa esfera que vão dar os dois tubos para inspiração e expiração.
– Perfeitamente, capitão. Mas o ar que transporta consigo deve esgotar-se rapidamente.
– Sem dúvida; mas as bombas do “Nautilus” me permitem armazena-lo a uma pressão considerável. Nessas condições, o reservatório do aparelho pode fornecer ar respirável durante nove ou dez horas.
– Não tenho mais objeções - falei-lhe. - Gostaria apenas de lhe fazer mais uma pergunta: como ilumina o caminho no fundo do oceano?
– Com o aparelho Ruhmkorff que levo preso à cintura. É composto por uma pilha de Bunzen, que ativo com sódio e consigo uma luz esbranquiçada e contínua.
– A todas as minhas objeções o senhor dá respostas tão concludentes que não ouso duvidar, capitão. No entanto ainda preciso de esclarecimentos sobre as espingardas que usa nessas caçadas.
– Está evidente que não se trata de uma arma que usa a pólvora. As minhas espingardas funcionam com ar comprimida, que as bombas do
“Nautilus” me fornecem abundantemente.
– Mas esse ar deve gastar-se depressa.
verdade. Mas tenho o reservatório Rouquayrol que pode, se necessário, fornecê-lo. Só preciso de uma torneira auxiliar. Aliás, o senhor terá ocasião de verificar que nessas caçadas submarinas se gasta pouco ar e poucas balas.
– Não discuto mais, capitão. Só me resta pegar na espingarda e acompanha-lo. Para onde o senhor for irei também.
O Capitão Nemo conduziu-me para a proa do “Nautilus”. Passando pelo camarote de Ned Land e Conselho, chamei-os e eles nos seguiram. Chegamos a um compartimento situado a bombordo, perto da casa das máquinas, no qual devíamos vestir as nossas roupas de passeio submarino.