Vinte mil léguas submarinas · Primeira parte

XX.

Capítulo 22

Navegamos para oeste.

Navegamos para oeste. No dia 11 de janeiro dobramos o Cabo Wessel, que forma a extremidade do Golfo da Carpentária. Os recifes ainda eram numerosos, mas mais espalhados e assinalados na carta com bastante precisão. O “Nautilus” evitou os escolhos de Money a bombordo e os recifes de Vitória a estibordo.

A 13 de janeiro, o Capitão Nemo avisou-me que estávamos no Mar de Timor e à vista da ilha do mesmo nome. Esta ilha, cuja superfície é de mil seiscentos e vinte e cinco léguas quadradas, é governada por rajás, príncipes que se dizem filhos de crocodilos, o que . para eles significa que são descendentes da mais nobre origem a que um ser humano pode aspirar. Os seus escamosos antepassados enchem os rios da ilha e são objeto de uma veneração especial. São protegidos, mimados, adorados, e alimentados com jovens virgens, em ocasiões especiais. Desgraçado do estrangeiro que puser as mãos num desses animais, como é o caso desses enormes lagartos sagrados.

Passamos ao largo dessa ilha. A 18 de janeiro, ó “Nautilus” estava a 1050 de longitude e 150 de latitude meridional. O tempo era ameaçador e o mar agitado. O vento soprava forte de leste. Havia alguns dias que o barômetro estava descendo, anunciando para breve uma luta dos elementos.

Subi para a plataforma no momento em que o imediato procedia às medições dos ângulos solares. Esperei que ele, segundo o seu costume, pronunciasse a frase quotidiana, mas naquele dia ela foi substituída por uma outra não menos incompreensível. Quase imediatamente vi surgir o Capitão Nemo perscrutando o horizonte com o óculo de longo alcance.

Percebi que ele fixava um ponto determinado, permanecendo imóvel durante alguns minutos. Depois baixou o óculo e trocou uma dezena de palavras com o imediato, que estava visivelmente emocionado. O capitão mantinha-se frio e parecia fazer certas perguntas que o seu auxiliar respondia com afirmativas formais.

Enquanto eles conversavam, eu olhei diversas vezes na direção em que o capitão tinha olhado e não vi coisa alguma. O céu e a água confundiam-se na linha do horizonte com uma perfeita nitidez.

Entretanto, o Capitão Nemo andava de um extremo ao outro da plataforma, parecendo ignorar a minha presença ali. O seu passo era seguro, mas menos regular do que o habitual. As vezes parava, cruzava os braços e observava o mar.

O imediato tornara a pegar no óculo e olhava obstinadamente o horizonte, de um lado para o outro, batendo com o pé, contrastando com o capitão pelo seu evidente nervosismo. Em dado momento, ele chamou de novo a atenção do seu superior para o horizonte. O Capitão Nemo parou o seu passeio e dirigiu o óculo para o ponto indicado. Observou por um longo tempo na mesma direção. Intrigado para saber o que estava acontecendo naquele ponto longínquo, que prendia tanto a atenção deles, desci ao salão e peguei um excelente óculo de longo alcance que costumava utilizar. Apoiando-o na caixa do farol, saliente na frente da plataforma, preparava-me para ver toda a linha do céu e do mar. Ainda não tinha posto o óculo em posição e ele me foi arrancado das mãos.

Voltei-me e vi o Capitão Nemo diante de mim, chamando-me logo a atenção a sua fisionomia alterada. As sobrancelhas franzidas, os olhos brilhantes, o corpo tenso, todo o seu aspecto era o de um homem enraivecido. O meu óculo caíra de suas mãos e ele parecia nem ter notado isso. Seria eu a causa de toda aquela ira?

Por fim o Capitão Nemo recuperou a calma. O seu rosto readquiriu o aspecto habitual. Dirigiu algumas palavras ao seu imediato e depois voltou-se para mim e disse:

– Sr. Aronnax - sua voz tinha um tom imperioso - exijo-lhe o cumprimento de um dos compromissos que assumiu comigo.

– De que se trata, capitão?

– O senhor e os seus companheiros vão se recolher voluntariamente à cela e ficarão trancados lá até que eu ache conveniente devolvê-los à liberdade.

– É o senhor quem manda - falei, olhando-o fixamente. - Posso lhe fazer uma pergunta?

– Nenhuma.

Diante desta resposta só me restava obedecer. Desci à cabina ocupada por Ned Land e Conselho e informei-os da determinação. Quatro homens da tripulação esperavam à porta e não houve tempo para as explicações que o canadense queria. Voltamos à cela onde tínhamos passado a nossa primeira noite a bordo do “Nautilus”. Depois que ficamos sozinhos contei-lhes o que tinha se passado na plataforma do barco. Aliás, eu não tinha muita coisa para informar a eles.

Entretanto, mergulhei num abismo de reflexões e a estranha fisionomia do Capitão Nemo não me saía do pensamento. Mas eu era incapaz de juntar duas idéias lógicas e perdia-me nas mais absurdas hipóteses até que Ned Land me tirou daquela tensão.

– Serviram-nos o almoço, professor - anunciou-me ele.

Acabado o almoço, cada um de nós se recostou para o seu lado. Meus companheiros dormiram logo. Eu pensava sobre o que teria provocado neles aquele desejo imperioso de dormir, quando senti o meu cérebro invadido por forte torpor. Era evidente que haviam misturado substâncias soporíferas na comida que nos serviram. Tentei resistir ao sono mas não consegui.

Os passageiros adormecidos
Os passageiros adormecidos

Телеграмма

Отправная станция: Всемирная паутина · Место назначения: борт «Наутилуса»

0 слово · тариф: 0 крейцер (точки заменяются на СТОП)