Vinte mil léguas submarinas · Primeira parte
IX.
Capítulo 9
Ignoro qual foi a duração do nosso sono, mas deve ter sido longo, pois ao acordarmos nos sentimos completamente recuperados das fadigas.
Ignoro qual foi a duração do nosso sono, mas deve ter sido longo, pois ao acordarmos nos sentimos completamente recuperados das fadigas.
Fui o primeiro a despertar. Assim que me levantei daquele leito um pouco duro, senti o cérebro desanuviado, o espírito livre e tentei reavaliar a fossa situação, enquanto fazia um exame da cela.
O monstro de aço acabava de emergir para respirar, como as baleias.
Logo que oxigenei os pulmões com o ar puro, procurei descobrir o condutor que fazia chegar até nós aquela corrente benfazeja e não tardei a encontrá-lo. Por cima da porta havia um orifício de ventilação que deixava passar uma coluna de ar fresco, renovando assim a atmosfera saturada da cela.
Estava eu nessas cogitações, quando Ned e Conselho acordaram, quase ao mesmo tempo, sob o efeito daquele ar revigorante.
– O senhor dormiu bem? - perguntou-me Conselho.
– Muito bem, meu rapaz - respondi. - E você, mestre Land? - indaguei ao canadense.
– Dormi profundamente, professor.
– Aconteceu o mesmo comigo - disse Conselho. A seguir me perguntou:
– O que acha da nossa situação, professor?
– Penso que o acaso nos revelou um importante segredo. Ora, se a tripulação deste navio submarino tem interesse em mantê-lo ignoto, e se esse interesse for para eles mais importante do que três vidas humanas, acho que a nossa existência está comprometida. Em caso contrário, na primeira ocasião, o monstro que nos engoliu há de devolver-nos ao mundo habitado pelos nossos semelhantes.
– A menos que nos incluam na tripulação e nos mantenham aqui -sugeriu o meu criado.
– E aqui ficaremos até o dia em que uma fragata mais rápida ou mais hábil do que a “Abraham Lincoln”, apodere-se deste ninho de piratas, fazendo-os respirar pela última vez nas vergas dos mastros.
– Bem pensado, mestre Land - repliquei. - Mas, que eu saiba, ainda não nos foi feita nenhuma proposta, e portanto é inútil discutir o que devemos fazer. Vamos aguardar e reagir diante de circunstâncias concretas. De qualquer maneira, não creio que tenhamos condições de exigir muita coisa.
Os sinais de inconformismo eram fáceis de se perceber no canadense.
Isso me deixava bastante preocupado. Eu mesmo estava incomodado com o nosso abandono naquela cela e nem podia calcular quanto tempo poderíamos ficar detidos nela. As esperanças que eu tinha alimentado depois que o comandante do submarino estivera conosco, desvaneciam-se pouco a pouco. A doçura do olhar daquele homem, a expressão generosa do seu rosto, a nobreza do seu porte, tudo isso desaparecia da minha lembrança, e eu via aquela personagem enigmática como ela devia ser, necessariamente impiedosa e cruel. Sentia-o desumano, incapaz de qualquer sentimento de piedade, inimigo implacável dos seus semelhantes aos quais devia consagrar eterno ódio.
Naquele momento, ouvimos um ruído no exterior e escutamos passos que se aproximavam no chão metálico.
Os ferrolhos foram corridos, a porta foi aberta e o mesmo empregado que nos servira a comida entrou. Antes que eu tivesse tempo de impedir, o canadense precipitou-se sobre ele, derrubou-o e começou a estrangulá-lo. Conselho tentava retirar a vítima já meio inanimada das mãos do arpoador, e eu ia juntar meus esforços ao dele quando, subitamente, fui surpreendido ao ouvir uma advertência falada em excelente francês:

– Acalme-se, mestre Land. E o senhor professor, queira escutar-me.