Vinte mil léguas submarinas · Primeira parte

V.

Capítulo 5

A fragata percorreu a costa sudoeste da América com uma rapidez prodigiosa.

A fragata percorreu a costa sudoeste da América com uma rapidez prodigiosa. No dia 3 de julho estávamos à entrada do Estreito de Magalhães, perto do Cabo das Virgens. O Comandante Farragut não quis atravessar esta sinuosa passagem e manobrou de forma a dobrar o Cabo Horn.

No dia 6 de julho, cerca das três horas da tarde, a “Abraham Lincoln”, quinze milhas para o sul, dobrou essa ilhota solitária, esse rochedo perdido no extremo do continente americano, ao qual alguns marinheiros holandeses deram o nome da sua cidade natal, o Cabo Horn.

Rumamos para noroeste e no dia seguinte a hélice da fragata batia finalmente nas águas do Oceano Pacífico.

As atenções de todos foram redobradas. Várias vezes partilhei da emoção dos oficiais e da tripulação, quando alguma baleia emergia o dorso escuro à tona da água. A coberta da fragata enchia-se de gente num abrir e fechar de olhos. Todos, com os peitos ofegantes e os olhares ansiosos, observavam a marcha do cetáceo. Eu olhava e tornava a olhar até gastar a retina ou ficar cego, enquanto Conselho, sempre fleumático, dizia-me num tom calmo:

Ned Land caça baleias
Ned Land caça baleias

– Se o senhor quisesse ter a bondade de não arregalar tanto os olhos, talvez visse melhor.

Esperanças vãs! A fragata aumentava a velocidade e perseguia o animal assinalado, que não passava de uma simples baleia ou cachalote, que em breve desaparecia no meio de um concerto de imprecações.

A 20 de julho atravessamos o Trópico de Capricórnio a cento e cinco graus de longitude e no dia 27 do mesmo mês chegamos ao Equador pelo meridiano cento e dez. Depois a fragata rumou mais decididamente para oeste e entrou nos mares centrais do Pacífico. O Comandante Farragut pensava, com razão, que era preferível navegar em águas profundas e afastar-se dos continentes e das ilhas, que o animal parecia ter sempre evitado, “sem dúvida porque as águas não eram suficientemente profundas para ele”, segundo o mestre da tripulação. A fragata passou, portanto, ao largo das Pomotu, das Marquesas, das Sandwish, passou o Trópico de Câncer a cento e trinta e dois graus de longitude e dirigiu-se para os mares da China.

Não ficou nessas águas um único ponto por explorar, desde as costas do Japão às da América. E nada! Nada, a não ser a imensidão dos mares desertos. Nada que se parecesse com um narval gigantesco, com uma ilhota submersa, com o casco de um navio afundado, com um escolho móvel ou com algo de sobrenatural.

O desânimo apoderou-se dos espíritos e abriu caminho à incredulidade.

Com a desesperança e o descontentamento da tripulação, o Comandante Farragut decidiu que se no prazo de três dias o monstro não aparecesse, o timoneiro daria três voltas ao leme é a “Abraham Lincoln” navegaria para os mares da Europa.

A decisão, tomada: a 2 de novembro, teve como resultado reanimar a tripulação. O oceano foi observado com novo entusiasmo. Todos queriam dar-lhe uma última olhadela, como que para guardar uma recordação. Os óculos funcionavam com uma atividade febril. Era um desafio supremo lançado ao narval gigante, e este não podia deixar de corresponder àquele desejo de encontrá-lo.

No dia 5 de novembro, exatamente ao meio-dia, expirava o prazo estabelecido pelo Comandante Farragut, depois do que, fiel à sua promessa, devia rumar para sudeste e abandonar definitivamente as regiões setentrionais do Pacífico.

A fragata encontrava-se então a 310 15' de latitude norte e a 1360 42' de longitude leste. As terras do Japão estavam a menos de duzentas milhas para sotavento. A noite aproximava-se. Acabavam de soar as oito horas. Grandes nuvens envolviam o disco da lua, então em quarto crescente. O mar ondulava calmo sob a quilha do navio.

De repente, no meio do silêncio geral, ouviu-se uma voz. Era Ned Land quem gritava:

– Alerta! Vejo o monstro! Dirige-se para nós.

Sürgöny

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