Vinte mil léguas submarinas · Segunda parte — O fundo do mar
IX.
Capítulo 10
No dia seguinte, 20 de fevereiro, acordei muito tarde.

No dia seguinte, 20 de fevereiro, acordei muito tarde. As fadigas da noite haviam prolongado o meu sono até as onze horas. Vesti-me rapidamente porque tinha pressa em saber qual o rumo do “Nautilus”.
Os instrumentos do salão indicaram-me que ele continuava a navegar para ó sul, com uma velocidade de vinte milhas por hora e a uma profundidade de cem metros.
Esse dia passou-se sem novidades. No entanto, estive espiritualmente muito ocupado recordando todos os meus conhecimentos sobre a história da Atlântida. O passeio da noite anterior me deixara realmente impressionado. Não teria sido um sonho?
No dia seguinte, 21 de fevereiro, eram oito horas da manhã quando cheguei ao salão. Olhei o manômetro. O “Nautilus” flutuava à superfície do oceano. Dirigi-me para o alçapão que estava aberto. Mas em vez da luz do dia que esperava, vi-me rodeado de uma escuridão profunda.
Onde estaríamos? Ainda seria noite e eu teria me enganado?
Não sabia o que pensar, quando ouvi a voz do Capitão Nemo.
– Professor Aronnax?
– Sim. Onde estamos, capitão?
– Debaixo da terra, professor.
– Debaixo da terra? Mas o “Nautilus” está flutuando?
– Como sempre, professor.
– Mas não compreendo!
– Espere uns instantes. O nosso farol vai acender-se e, se gosta de situações claras, vai ficar satisfeito.
A escuridão era tão completa que nem sequer eu via o capitão. No entanto, olhando o zênite, exatamente por cima de minha cabeça, pareceu-me ver uma luz vaga, uma espécie de meia-luz que enchia um buraco circular. Naquele momento acendeu-se o farol do “Nautilus” e o seu brilho intenso fez desvanecer num instante aquela vaga luz.
Olhei, depois de ter fechado os olhos por um instante, ofuscados pela luz elétrica. O submarino estava imóvel. Flutuava junto de uma margem disposta como um cais. O meio que então o suportava era um lago aprisionado dentro de um círculo de muralhas que media duas milhas de diâmetro. O seu nível, indicado pelo manômetro, só podia ser o nível exterior, porque existia necessariamente uma comunicação entre o lago e o mar. As altas muralhas, inclinadas para a base, arredondavam-se em abóbada e pareciam um enorme funil invertido, cuja altura era de uns quinhentos a seiscentos metros. No cume abria-se um orifício circular por onde eu tinha notado aquela fraca claridade; sem dúvida devida aos raios solares.


Antes de examinar atentamente as disposições interiores daquela enorme caverna e de procurar saber se seria obra da natureza ou do ho-mem, perguntei ao capitão:
– Onde estamos?
– No centro de um vulcão extinto. Um vulcão cujo interior foi invadido pelo mar, depois de uma convulsão do solo. Enquanto o senhor estava dormindo, o “Nautilus” penetrou nesta lagoa através de um canal natural, aberto a dez metros abaixo da superfície do oceano. É aqui o seu porto de abrigo. Um porto seguro, cômodo, secreto, abrigado de todos os ventos.
– Não resta dúvida que está em segurança aqui, capitão. Quem se lembrará de procurá-lo no centro de um vulcão. Quem poderia fazê-lo?
Mas não é uma abertura o que vejo no cimo da caverna?
– Sim, é uma cratera. Outrora cheia de lava, de vapores e de chamas, hoje ela dá passagem ao ar vivificante que respiramos aqui.
– Que montanha vulcânica é esta?
– Pertence a uma das numerosas ilhas que povoam este mar. Simples escolho para os navios, é para nós uma imensa caverna. Eu a descobri por acaso e foi uma descoberta muito útil.
– Está em segurança neste lago e só o senhor pode visitar estas águas.
Mas para que serve este refúgio? O “Nautilus” precisa de um porto?
– Não, professor, mas precisa de eletricidade para se mover. Precisa de elementos para produzir essa eletricidade. De sódio, para alimentar esses elementos, de carvão para fazer o sódio e de minas que produzam esse carvão. Ora, precisamente aqui, o mar cobre florestas inteiras há milhares de anos. Hoje mineralizadas e transformadas em hulha,, essas florestas são uma mina inesgotável para mim.
Agradeci ao capitão as suas informações e fui procurar os meus companheiros que ainda não tinham saído de sua cabina. Convidei-os para que me acompanhassem à plataforma, sem lhes dizer onde nos encontrávamos. Conselho, que não se surpreendia com coisa alguma deste mundo, olhou-me como se fosse uma coisa natural acordar debaixo de uma montanha. Ned Land fez algumas perguntas, mas na verdade só se preocupou em saber se a caverna tinha alguma saída. Não tinha.
Depois do almoço descemos na margem do lago.
– Íeis-nos mais uma vez em terra - disse Conselho.
– Não chamo a isto terra - falou o canadense. - Aliás, não estamos por cima, mas por baixo.
– Estamos dentro da montanha - manifestei-me, prevenindo uma possível discussão entre os dois.
A natureza vulcânica daquela enorme cavidade era visível por toda parte. Chamei a atenção de meus companheiros para isso.
– Imaginam o que deveria ser este funil quando as lavas incandescentes subiam até o orifício da montanha, como a matéria em fusão dentro de um forno?

– Imagino perfeitamente - respondeu Conselho. - Mas por que será que o grande fundador suspendeu o seu trabalho e como foi que a fornalha se encheu de água?
– Provavelmente porque alguma convulsão da natureza produziu sob a superfície do oceano a abertura que serviu de passagem ao “Nautilus”.
Então as águas do Atlântico invadiram o interior da montanha. Houve uma luta terrível entre os dois elementos, que terminou com a vitória de Netuno. Desde então passaram-se muitos séculos e o vulcão submerso transformou-se numa pacífica gruta.
Passamos a tarde inteira passeando pela gruta e Ned Land verificou pessoalmente que nenhum ser humano poderia subir ou descer pela cratera do vulcão. Depois regressamos para bordo. A tripulação acabava de embarcar as provisões de sódio e o “Nautilus” estava pronto para partir a qualquer momento.
No entanto o Capitão Nemo não dava a ordem nesse sentido. Queria esperar pela noite e sair secretamente pela passagem submarina?
Deveria ser justamente isso, porque na manhã seguinte o submarino navegava ao largo e a alguns metros abaixo das ondas do Atlântico.