Vinte mil léguas submarinas · Segunda parte — O fundo do mar
XIV.
Capítulo 15
No dia seguinte, 22 de março, às seis horas da manhã, começamos os preparativos para a partida.
No dia seguinte, 22 de março, às seis horas da manhã, começamos os preparativos para a partida. Os últimos raios do crepúsculo misturavam-se com a noite. O frio era intenso. As constelações resplandeciam com surpreendente intensidade. No zênite brilhava o admirável Cruzeiro do Sul, a Estrela Polar das regiões antárticas.
O termômetro marcava doze graus abaixo de zero e quando o vento soprava sentia-se picadas dolorosas. Os pedaços de gelo multiplicavam-se na água. O mar tendia a gelar. Evidentemente a bacia natural, gelada durante os seis meses de inverno, seria inacessível.‘
Os reservatórios de água haviam sido cheios e o “Nautilus” imergia lentamente. Parou a uma profundidade de trezentos metros. Avançou para o norte com uma velocidade de quinze milhas por hora. A tardinha já navegava sob a imensa carapaça do banco de gelo. Por prudência os painéis do salão tinham sido fechados para evitar possíveis choques dos vidros com algum bloco de gelo solto. Como não tinha nada para fazer no salão fui me deitar.
As três horas da madrugada fui acordado por um choque violento.
Levantei-me da cama e me pus à escuta no meio da obscuridade, quando fui bruscamente precipitado para o meio do quarto. O
“Nautilus” adernava depois do choque. Amparei-me às paredes e arrastei-me pelos corredores até o salão. Conselho e Ned Land já estavam lá comentando o acontecimento, mas tão ignorantes como eu do que realmente acontecera e qual era a situação do submarino.
Estávamos há vinte minutos tentando escutar os mínimos ruídos no interior do “Nautilus”, quando o Capitão Nemo entrou. O seu rosto habitualmente impassível revelava uma certa preocupação. Observou em silêncio a bússola e o manômetro e foi pôr o dedo num ponto do planisfério, na parte que representava os mares austrais.
Eu não quis interromper os estudos que ele fazia nos aparelhos. Passado um momento, quando se virou para mim, eu lhe dirigi a palavra utilizando uma expressão de que ele havia se servido quando encalhamos no Estreito de Torres:
– Um incidente, capitão?
– Não, professor, desta vez é um acidente.
– Grave?
– Talvez. Mas não há perigo imediato. O “Nautilus” encalhou devido a um capricho da natureza e não à imperícia dos meus homens. Não foi cometido um único erro nas nossas manobras. Pode-se desafiar as leis humanas, mas não se pode resistir às leis da natureza.
Sobre o acidente, a resposta dele não nos esclareceu nada.
– Pode me dizer qual a causa do acidente, capitão?
– Um enorme bloco de gelo, uma montanha inteira, virou-se. Quando os icebergs são minados na base por. águas mais quentes ou por repetidos choques, o seu centro de gravidade sobe. Então, viram-se ao contrário.
Foi o que aconteceu. Um desses blocos ao virar-se bateu no meu barco que flutuava sob as águas. Depois, deslizando-lhe por baixo do casco e elevando-o com força irresistível, arrastou-o para camadas menos densas, onde se encontra deitado de flanco.
– As providências...
– Já estão sendo tomadas, professor. Os reservatórios estão sendo esvaziados e o senhor pode ouvir as bombas funcionando. O ponteiro do manômetro indica que o “Nautilus” está a subir, mas o bloco de gelo sobe também. Até que um obstáculo de qualquer ordem detenha a ascensão dele a nossa situação não se alterará.
O capitão não tirava os olhos do manômetro. De repente sentimos um movimento do casco e o submarino começou a se endireitar. Ninguém falava. Com os corações apertados, observávamos, sentíamos os movimentos do navio. O chão tornava-se horizontal debaixo dos nossos pés. Passaram-se dez minutos. O “Nautilus” voltara à sua posição normal.
– Flutuaremos, capitão? - perguntei.
– Certamente que sim, uma vez que os reservatórios ainda não estão vazios. Logo que estejam, levarão o “Nautilus” à superfície do mar.
O capitão saiu. Logo depois o submarino começou a flutuar. Mas a uma distância de dez metros em seu redor, elevava-se uma resplandecente muralha de gelo. Por cima e por baixo a mesma muralha. Ele estava prisioneiro num verdadeiro túnel de gelo, com cerca de vinte metros de largura e cheio de uma água tranqüila.
De repente, como se tivesse encontrado uma saída, o “Nautilus” adquiriu velocidade. Os painéis do salão foram fechados. Eram então cinco horas da manhã. Naquele momento sentimos um novo choque na proa do submarino. Percebi que seu esporão havia batido de encontro a um bloco de gelo. Calculei que o avanço para a frente não deveria ser impossível. Contrariando a minha expectativa, o “Nautilus” iniciou um movimento de retrocesso muito pronunciado.
– Voltamos para trás? - perguntou Conselho.
– Sim. Este lado do túnel não deve ter saída - respondi.
– E depois?...
– Depois a manobra é muito simples. Voltamos pelo mesmo caminho e saímos pela abertura sul. É tudo!
Ao falar assim, eu quis dar a impressão de estar mais tranqüilo do que realmente estava. Entretanto, o movimento de retrocesso do barco acelerava-se e, avançando a contra-hélice, movia-se velozmente.
– Será um atraso - disse Ned Land.
– Que interessam umas horas a mais ou a menos, desde que se saia -falei, um tanto rispidamente.
– Sim, desde que se saia - repetiu ele.
Passaram-se algumas horas. Eu observava constantemente os instrumentos suspensos na parede do salão. O manômetro indicava que o
“Nautilus” se mantinha a uma profundidade .constante de trezentos metros e a bússola marcava para o sul. Sua velocidade era de vinte milhas horárias, realmente excessiva num espaço tão apertado. Mas o capitão sabia que tinha de andar depressa e que na nossa situação os minutos valiam séculos.
As oito horas ocorreu um segundo choque, dessa vez na ré. Empalideci.
Os meus companheiros tinham se aproximado e eu peguei na mão de Conselho. O silêncio exprimia melhor a nossa angústia.
O capitão apareceu naquele momento e eu me dirigi a ele
– O caminho está obstruído para o sul?
– Sim, professor. Ao virar-se, o iceberg vedou-nos todas as saídas.
– Estamos bloqueados?
– Sim.