Vinte mil léguas submarinas · Primeira parte

XXI.

Capítulo 23

No dia, seguinte acordei com a cabeça estranhamente aliviada.

No dia, seguinte acordei com a cabeça estranhamente aliviada. Para minha grande surpresa, encontrava-me rio meu quarto. Certamente os meus companheiros também tinham sido levados para a sua cabina enquanto dormiam. O que teria se passado durante aquela noite? Para desvendar esse mistério eu só podia contar com o acaso do futuro.

Saí do quarto, passei pelos corredores, subi a escada central e vi que os alçapões, fechados na véspera, estavam abertos. Subi à plataforma e encontrei Ned Land e Conselho. Como eu, nada tinham visto, nada sabiam.

Quanto ao “Nautilus”, tranqüilo e misterioso corne sempre, navegava à superfície a uma velocidade moderada. Nada parecia ter mudado a bordo. Resolvi voltar ao meu quarto para continuar as minhas anotações sobre aquela incrível viagem submarina.

Por volta das duas horas encontrava-me no salão quando o capitão abriu a porta e entrou. Cumprimentamo-nos. Reparei que ele tinha o rosto fatigado e a sua fisionomia exprimia uma profunda tristeza. Quando falou comigo foi para me perguntar se eu era médico.

Diante de minha resposta afirmativa, ele me disse que um de seus homens estava doente. Perguntou-me se eu estaria disposto a tratar dele e, novamente, a minha resposta foi afirmativa. O Capitão Nemo me conduziu imediatamente à ré do navio onde ficava o alojamento da tripulação. O homem não estava apenas doente, estava gravemente ferido e não demoraria a morrer.

Exame do marinheiro ferido
Exame do marinheiro ferido

Depois de examiná-lo demoradamente, eu disse ao capitão:

– Não há nada que eu possa fazer. Este homem morrerá dentro de duas horas.

A mão do capitão crispou-se e algumas lágrimas caíram-lhe dos olhos que eu julgava incapazes de chorar.

– Pode retirar-se, Sr. Aronnax - disse-me ele.

Na manhã seguinte subi à plataforma e encontrei o capitão lá. Assim que me viu chegar, ele veio falar comigo.

– Deseja fazer hoje uma excursão submarina, professor? - perguntou-me. Notei que ele continuava triste.

– Com os meus companheiros? - indaguei.

– Se eles quiserem.

– Estamos às suas ordens, capitão.

– Então chame os seus amigos e vão vestir os escafandros.

Sobre o moribundo ou o morto, ele manteve silêncio total.

As oito e meia da manhã estávamos prontos para o novo passeio.

Dessa vez, Ned Land não pôs nenhum obstáculo para vestir o escafandro e nos acompanhar. O Capitão Nemo chegou seguido de .doze dos seus homens, a porta dupla foi aberta, eles saíram e nós os seguimos a pé a uma profundidade de dez metros, sobre a terra firme onde repousava o “Nautilus”. Eu gostaria de poder entender as reações que se desenhavam na fisionomia do canadense.

Depois de andarmos por um longo tempo, chegamos ao início de uma floresta petrificada, com longas veredas de arquitetura fantasista. O

Capitão Nemo seguiu por uma obscura galeria cuja suave inclinação nos conduziu a uma profundidade de cerca de trezentos metros. Mas ali não existiam mais os arbustos isolados, nem a modesta mata de baixa altura que vínhamos encontrando. Era a floresta imensa, as grandes vegetações minerais, as enormes árvores petrificadas, reunidas por elegantes grinaldas, lianas do mar, cheias de tonalidades e reflexos.

Passamos livremente sob as suas altas copas perdidas na escuridão das águas, enquanto os nossos pés pisavam um fofo tapete semeado de jóias deslumbrantes. Um mundo realmente fantástico.

O Capitão Nemo parou no centro de uma grande clareira, rodeada de altas árvores. Os seus homens formaram um semicírculo em volta dele.

Observando com mais atenção verifiquei que quatro deles transportavam aos ombros um objeto de forma oblonga.

Ned Land e Conselho estavam perto de mim. Ao ver tudo aquilo, deduzi que iríamos presenciar uma cena estranha. Olhando o solo, verifiquei que em certos pontos podiam-se notar pequenas elevações dispostas com uma regularidade que traía a mão do homem. No meio da clareira, sobre um pedestal de rochas toscamente amontoadas, erguia-se uma cruz de coral estendendo os seus longos braços que se diriam feitos de sangue petrificado.

A um sinal do Capitão Nemo um dos seus homens avançou e, a alguns passos da cruz, começou a escavar um buraco com uma picareta que tirou do cinto. Então compreendi tudo! Aquela clareira era um cemitério. O objeto oblongo que os homens carregavam nos ombros era o seu companheiro falecido conforme eu previra.

O Capitão Nemo e os seus homens iam enterrar o companheiro naquela morada comum, no fundo do oceano inacessível! Eu mal podia acreditar no que os meus olhos viam. Mas o trabalho prosseguiu, a cova foi aberta e os portadores do corpo se aproximaram e o deitaram no seu úmido túmulo. O Capitão Nemo, de braços cruzados sobre o peito, acompanhado de todos os amigos do falecido, se ajoelhou em oração. Eu e meus dois companheiros inclinamos as nossas cabeças.

Depois o capitão e seus homens se levantaram e, aproximando-se mais do túmulo, cada um deles dobrou um joelho e estendeu a mão num último adeus sem palavras. Sempre guiado pelo Capitão Nemo, o cortejo fúnebre retornou ao “Nautilus”.

Assim que despi o escafandro e subi à coberta, o capitão foi falar comigo. Antes que me dissesse qualquer coisa eu lhe falei:

– Confirmando a minha previsão, o homem morreu durante a noite.

– Sim, Sr. Aronnax - confirmou ele.

– E agora repousa junto dos companheiros no cemitério de coral.

Enterro no cemitério de coral
Enterro no cemitério de coral

– É exato, professor. É ali o nosso agradável cemitério . . .

– Onde os seus mortos podem repousar tranqüilos, fora do alcance dos tubarões!

– Sim, dos tubarões e dos homens - respondeu-me em tom grave.

Telegram

Origin office: the World Wide Web · Destination: aboard the Nautilus

0 words · charge: 0 kreuzers (periods become STOP)