Vinte mil léguas submarinas · Primeira parte

XVI.

Capítulo 16

Chegávamos enfim à floresta, sem. dúvida uma das mais belas do imenso domínio do Capitão Nemo.

Chegávamos enfim à floresta, sem. dúvida uma das mais belas do imenso domínio do Capitão Nemo. Ele a considerava sua e julgava ter sobre ela os mesmos direitos que tinham os homens primitivos na, alvorada da humanidade. Aliás, quem lhe disputaria aquela propriedade submarina? Que outro pioneiro mais ousado, viria, de machado na mão, cortar-lhe a mata?

Aquela floresta era composta por grandes plantas arborescentes, e assim que penetramos debaixo das suas ramagens, os meus olhos sentiram-se atraídos pela estranha disposição dos ramos, a qual nunca tinha visto até então nas florestas da superfície terrestre.

Nenhuma erva das que atapetavam o solo, nenhum ramo dos arbustos se enroscava ou se estendia num plano horizontal: todos subiam para a superfície do mar. Não havia um filamento, uma fita, por mais delgada que fosse, que não se mantivesse direita como se fosse um fio de ferro.

Notei também que todos os espécimes do reino vegetal: estavam presos ao solo apenas por uma ligação superficial. Desprovidos de raízes, indiferentes ao corpo sólido, areia, concha ou pedra, que as suportava apenas lhe pediam apoio e não vitalidade. Essas plantas provêm de si mesmas e o princípio de sua existência está na água, que as sustenta e alimenta.

Por volta de uma hora o Capitão Nemo fez sinal para que parássemos.

Por mim, fiquei muito satisfeito, e estendemo-nos debaixo de uma árvore, cujos longos e estreitos ramos se erguiam como flechas. Depois de quatro horas a andar, surpreendi-me por não sentir fome. Não sabia como explicar aquela disposição do estômago, mas em contrapartida, sentia uma irresistível vontade de dormir, como acontece a todos os mergulhadores. Portanto, os olhos não tardaram a fechar-se por trás do espesso vidro e mergulhei numa sonolência invencível, que até então tinha sido combatida pela marcha. O Capitão Nemo e o seu robusto companheiro, estendidos naquele líquido cristalino, também se entregaram ao sono.

Não posso precisar por quanto tempo permaneci naquela letargia, mas quando acordei pareceu-me que o sol se punha no horizonte. O capitão já se erguera, e eu começava a desentorpecer os membros quando uma inesperada aparição me fez levantar bruscamente.

A alguns passos de distância, uma monstruosa aranha do mar, com um metro de altura, olhava-me com os seus olhos vesgos, prestes a atirar-se sobre mim. Embora o meu escafandro fosse suficientemente espesso para me defender contra as mordeduras da aranha não pude evitar um movimento de horror. O Capitão Nemo apontou ao seu companheiro o hediondo animal, que foi imediatamente abatido com uma coronhada. Vi as horríveis patas do monstro contorcerem-se em convulsões terríveis.

Uma aranha marinha gigante
Uma aranha marinha gigante

Esse episódio levou-me a pensar que outros animais ainda mais temíveis habitavam aquelas profundidades e que o meu escafandro não me protegeria contra os seus ataques. Até então ainda não me ocorrera tal idéia e decidi ter mais cuidado.

Uma floresta submarina
Uma floresta submarina

Por volta das quatro horas, aquela maravilhosa excursão chegou ao seu termo. Erguia-se diante de nós uma muralha de rochas soberbas, blocos gigantescos, enorme falésia de granito com grutas obscuras, mas sem nenhum caminho praticável. Eram as escarpas da ilha Crespo. Era a terra.

O capitão parou de repente. Com um gesto indicou-nos que fizéssemos o mesmo. Ali acabavam-se os seus domínios e ele não queria ultrapassá-los. Para diante era aquela porção do globo terrestre que ele não queria tornar a pisar.

De regresso ao “Nautilus” andávamos calmamente quando vi o Capitão Nemo apontar a arma e seguir um vulto móvel que se insinuava entre os arbustos. A bala partiu, ouvi um fraco silvo e um animal foi cair fulminado a alguns passos de nós. Era uma magnífica lontra do mar, o único quadrúpede exclusivamente marinho. O companheiro do capitão apanhou o animal, colocou-o sobre os ombros e continuamos a caminhar.

Caçada submarina
Caçada submarina

Durante duas horas atravessamos, ora planícies arenosas ora pradarias de sargaço, muito difíceis de se caminhar nelas. Francamente eu já não agüentava mais, quando avistei uma luz fraca a cerca de, meia milha, rompendo a obscuridade das águas. Era o farol do “Nautilus”. Fiquei realmente satisfeito com a proximidade do descanso.

Eu tinha ficado uns vinte passos para trás, quando vi o Capitão Nemo retroceder em minha direção. Com a sua mão vigorosa atirou-me ao chão, enquanto o seu companheiro fazia o mesmo ao meu criado. A princípio eu não soube o que pensar daquele ataque brusco, mas fiquei mais tranqüilo ao ver que o capitão se deitava a meu lado e permanecia imóvel. Estávamos estendidos no solo e abrigados por uma moita de sargaços, quando ao levantar a cabeça vi duas enormes massas que passavam ruidosamente, lançando clarões fosforescentes.

O sangue gelou-se-me nas veias ao reconhecer os enormes esqualos que nos ameaçavam. Era um casal de “tintoreas”, terríveis tubarões, com uma cauda comprida, olhar vítreo, que expelem uma matéria fosforescente por uns orifícios que possuem à volta do focinho. Animais monstruosos, que podem triturar um homem com os seus maxilares de ferro.

Felizmente esses vorazes animais têm uma visão muito débil, e passaram por nós sem nos ver, roçando-nos com as suas barbatanas negras.

Pudemos escapar como que por milagre àquele grande perigo, certamente maior do que o que existe num encontro com um tigre das florestas terrestres.

Três minutos depois, orientados pelo foco elétrico, estávamos entrando no “Nautilus”.

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Origin office: the World Wide Web · Destination: aboard the Nautilus

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