Vinte mil léguas submarinas · Primeira parte

XVII.

Capítulo 17

Na manhã seguinte, dia 18 de novembro, já refeito das fadigas da véspera, subi à plataforma no momento em que o imediato pronunciava a sua frase quotidiana.

Na manhã seguinte, dia 18 de novembro, já refeito das fadigas da véspera, subi à plataforma no momento em que o imediato pronunciava a sua frase quotidiana. Veio-me então a idéia de que ele devia estar informando sobre o estado do mar e que as suas palavras significariam:

“Nada à vista!”

Eu admirava o magnífico aspecto do oceano, quando o Capitão Nemo apareceu. Tive a impressão de que ele não se apercebeu da minha presença e iniciou uma série de observações técnicas. Terminado o trabalho, foi encostar-se ao farol e o seu olhar perdeu-se no horizonte.

Entretanto, uns vinte marinheiros do “Nautilus”, todos eles homens vigorosos e bem constituídos, tinham subido à plataforma para puxar as redes lançadas durante a noite. Percebi que os homens eram oriundos de nações diferentes, embora o tipo europeu fosse comum a todos.

Reconheci irlandeses, franceses, alguns escandinavos e um grego. Aliás, esses homens eram muito sóbrios de palavras, e só utilizavam entre si aquele estranho idioma, cuja origem eu nem suspeitava. Assim, tive de renunciar ao meu desejo de interrogá-los.

As redes foram içadas para bordo. Calculei que tinham trazido mais de mil libras de peixes. Terminada a pesca e renovada a provisão de ar, pensei que o “Nautilus” iria continuar a sua excursão submarina e me preparava para descer ao meu quarto quando, virando-se para mim, o Capitão Nemo disse:

– Veja este oceano, professor. Não é dotado de uma vida real? Não tem as suas iras e ternuras? Ontem adormeceu como nós, e agora desperta após uma noite de calma.

Nem bom-dia, nem boa-noite! Parecia que aquele estranho personagem reatava comigo uma conversa suspensa poucos minutos antes. Ele continuou falando:

– Repare: desperta com as carícias do sol. Vai reviver a sua existência diurna. É um estudo interessante seguir o funcionamento do seu organismo. Possui pulso, artérias, espasmos e dou razão ao sábio Maury, que descobriu no mar uma circulação tão real como a circulação sangüínea nos animais.

Era evidente que o Capitão Nemo não esperava qualquer resposta minha, e pareceu-me inútil pronunciar as habituais banalidades. Após uma breve pausa, ele continuou :

– Os sais encontram-se em quantidade considerável no mar. Se extraíssem todos os sais que o mar contém em suspensão, obteríamos uma massa de quatro e meio milhões de léguas cúbicas. Essa massa, espalhada no globo terrestre, formaria uma camada com mais de dez metros de altura. E não pense que a presença desses sais se deve a um capricho da natureza. Não! Tornam as águas marinhas menos evaporáveis e impedem o vento de lhes roubar uma quantidade demasiado grande de vapores que, ao se liquefazerem, submergiriam as zonas temperadas.

Papel importante e imenso, papel moderador na economia geral do globo terrestre.

Ao falar desse modo, o Capitão Nemo transfigurava-se, o que provocava em mim uma extraordinária emoção.

– Aqui - continuou ele - existe a verdadeira vida. Imagine a fundação de cidades aquáticas, de aglomerados de casas submarinas que, como o

“Nautilus”, subissem todas as manhãs à superfície dos mares para respirar. Cidades livres, cidades independentes! E daí, talvez algum tirano...

O Capitão Nemo disse essas últimas palavras e fez um gesto violento.

Depois, como que para afastar algum pensamento funesto, perguntou-me:

– O professor sabe qual é a profundidade média dos oceanos?

– Sei apenas o que as últimas sondagens nos revelaram. Se não me engano, verificou-se uma profundidade média de oito mil e duzentos metros no Atlântico Norte e de dois mil e quinhentos metros no Mediterrâneo. As sondagens mais importantes foram feitas no Atlântico Sul, perto do trigésimo quinto grau, e deram: doze mil metros, quatorze mil e noventa “e um metros e quinze mil cento e quarenta e nove metros.

Resumindo, calcula-se que se o fundo do mar fosse uniforme teria uma profundidade média de cerca de sete quilômetros.

– Espero mostrar-lhe algo melhor do que isso - disse-me o capitão. -

Quanto à profundidade média desta zona do Pacífico, digo-lhe que é de apenas quatro mil metros.

Dito isto, dirigiu-se para o alçapão e desapareceu pela escada. Eu o segui e fui para o salão. A hélice pôs-se imediatamente em movimento e o navio atingiu uma velocidade de vinte milhas por hora.

Nos dias e semanas que se seguiram, eu o vi muito raramente. O imediato fazia o ponto de nossa posição todos os dias e o assinalava no mapa. Assim eu podia seguir a rota do “Nautilus”.

Conselho e Land passavam muitas horas comigo. Conselho tinha contado ao amigo as maravilhas do nosso passeio e o canadense lamentava não nos ter acompanhado. Para consolo dele, todos os dias, durante algumas horas, abriam-se os painéis do salão e os nossos olhos nunca se cansavam de apreciar os mistérios do mundo submarino.

No dia 26 de novembro, às três horas da manhã, o “Nautilus” chegou ao Trópico de Câncer, a cento e setenta e dois graus de longitude. A 27, passou pelas ilhas

Sandwich, onde o ilustre Capitão Cook encontrou a morte no dia 14 de fevereiro de 1779. Tínhamos então percorrido quatro mil oitocentas e sessenta léguas desde a partida.

De manhã, quando subi à plataforma, avistei, a duas milhas para sotavento, o Havaí, a maior das sete ilhas que formam o arquipélago do mesmo nome. A direção do “Nautilus” mantinha-se para sueste. Passou o Equador no dia 1.° de dezembro, a 142° de longitude, e no dia 4 do mesmo mês, após uma rápida travessia que decorreu sem qualquer incidente, avistamos o grupo das ilhas Marquesas- Distingui a três milhas, a 800 57' de latitude sul e 1390 32' de longitude oeste, a ponta Martin, de NoukaHiva, a ilha principal deste grupo, que pertence à França. Vi apenas as montanhas cobertas de arvoredo, que se desenhavam no horizonte, porque o Capitão Nemo não gostava de se aproximar de terra.

Após ter deixado essas ilhas paradisíacas, protegidas pela bandeira francesa, o “Nautilus” percorreu, do dia 4 ao dia 11 de dezembro, cerca de duas mil milhas. Passei o dia 11 de dezembro a ler no grande salão. Ned Land e Conselho observavam as águas luminosas através dos painéis entreabertos’ O “Nautilus” mantinha-se agora imóvel. Com os reservatórios cheios, conservava-se a uma profundidade de mil metros, região pouco habitada, onde os peixes de grande porte apareciam de vez em quando.

Eu lia o encantador livro de Jean Macé “Les Serviteurs de 1’estomac”, saboreando as suas engenhosas lições, quando Conselho me interrom-peu:

– Queira desculpar-me, professor, mas venha ver isso aqui.

Levantei-me, aproximei-me do vidro e olhei pelo painel.

Iluminada pela luz elétrica, uma enorme massa escura e imóvel mantinha-se suspensa no meio das águas. Observei-a atentamente, tentando reconhecer a natureza do gigantesco cetáceo. Mas de repente um pensamento atravessou-me o espírito.

– É um navio! - exclamei.

– Sim - confirmou o canadense. - Um navio que naufragou.

Tínhamos diante de nós um navio, cujos cabos cortados pendiam ainda das respectivas cadeias. O casco parecia estar em bom estado e o naufrágio devia ter ocorrido poucas horas antes. Três pedaços de mastros, cortados dois pés acima do convés, indicavam que o navio se vira forçado a sacrificar a mastreação. Mas, adernando de flanco, tinha-se enchido de água e afundara, inclinado para bombordo. Triste espetáculo, ver aquela carcaça perdida nas águas. Ainda mais triste era ver os cadáveres no convés, amarrados por cordas. Vi quatro homens, um dos quais se mantinha de pé, preso ao leme, e uma mulher meio saída pela clarabóia do tombadilho, segurando uma criança nos braços. Era uma mulher jovem, pois pude ver-lhe claramente as feições iluminadas pelo farol do “Nautilus”. Num esforço supremo, ela tinha erguido o filho acima da cabeça, pobre criatura cujos bracinhos se agarravam ao pescoço da mãe. A postura dos quatro marinheiros era assustadora, contorcendo-se em movimentos convulsivos, fazendo um derradeiro esforço para se libertarem das cordas que os prendiam ao navio. Só, mais calmo, o rosto grave e sério, cabelos grisalhos colados à testa e as mãos crispadas no leme, o timoneiro parecia ainda conduzir o seu navio naufragado através das profundezas do oceano.

Um naufrágio no fundo do mar
Um naufrágio no fundo do mar

Que espetáculo! Ficamos mudos, com os corações a palpitarem diante daquele naufrágio recente, e por assim dizer fotografado nos seus momentos derradeiros. Via já avançar, com os olhos inflamados, enormes esqualos, atraídos por aquelas iscas de carne humana.

Entretanto, o “Nautilus”, dando uma volta ao navio submerso, permitiu-me ler-lhe na ré: “Flórida, Sunderland”.

O naufrágio do Flórida
O naufrágio do Flórida

Telegramm

Aufgabeamt: World Wide Web · Ziel: an Bord der Nautilus

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